Os meios de comunicação e a evolução do pensamento: uma análise de Harold Innis e Marshall McLuhan
Texto: Laura Carneval
Introdução
Durante muito tempo, as mensagens foram analisadas como o foco principal da comunicação de massa. A busca pela melhor interação entre emissor e receptor foi estudada por décadas e no decorrer destas, várias teorias foram criadas para explicar o pensar e o agir do homem diante da sociedade.
Em Frankfurt, onde surgiu uma dessas escolas, os pensadores criticavam o sistema econômico, os meios de comunicação e a população de uma forma geral, ao supor que esta seria alienada, não possuindo vontade própria devido a forma como a mensagem era passada – para eles, manipuladora.
Contra essa ideia de manipulação massiva, surgiu no Canadá uma corrente de pensamento que se focava basicamente nos meios de comunicação e na evolução destes. A base da discussão era ir contra a ideia da teoria da “bala mágica” e algumas outras teorias críticas, que sentiam um certo temor dos meios de comunicação - rádio e televisão, por exemplo.
Harold Innis e a Teoria Espaço/Tempo
Em 1940, Harold Innis publicou o primeiro trabalho sobre comunicação na forma de um artigo. Nele, Innis ressalta a importância da imprensa para o crescimento da economia, com ênfase na publicidade.
O encerramento deste artigo se deu com a implementação de um novo conceito de dimensão temporal, segundo o autor, os meios de comunicação aumentavam a velocidade de difusão das notícias fazendo com que o tempo fosse maximamente aproveitado.
Após esse período, Innis mudou seu pensamento e deixou de considerar que a comunicação de massa era a principal responsável pelo crescimento econômico, ao invés disso, ele passou a considerá-la como principal construtor da história da humanidade. Após essa concepção ele baseou toda sua obra no estudo da ascensão e da queda das civilizações relacionadas com os meios de comunicação predominantes na época.
Innis introduziu a teoria do espaço/tempo. Segundo ele, os meios de comunicação se dividem em dois tipos, os que priorizam o espaço e os que priorizam o tempo. Com a evolução dos materiais e a criação do papel (prioriza o espaço) os rumos da história foram mudados, pois a partir da sua rápida reprodução, mensagens puderam chegar de forma rápida aos lugares. O estudioso canadense também retratou o confronto entre os meios orais e visuais. O contato pessoal era mais utilizado nos meios orais, pois são necessários outros sentidos no ato da fala, como a visão e a audição. Porém, com a invenção da escrita, o sentido da visão tornou-se o mais relevante para a comunicação.
Marshall McLuhan e os Meios Como Extensões do Homem
Para Marshall McLuhan, o homem industrial tinha na cultura de massa um alicerce que fundamenta e caracteriza seus impulsos e necessidades. Professor de Literatura da Universidade de Toronto no Canadá e um grande pensador, tornou-se referência nos anos 60 pelo seu estudo e sua obra voltada para a cultura de massa e os meios de comunicação. Assim, o autor contrapunha-se a outros teólogos da época que criticavam a cultura de massa, pois, segundo ele, a verdadeira cultura não é aquela restrita apenas às elites intelectuais.
No livro Understanding Media: The Extensions of Man (Os meios de comunicação como extensões do homem, publicada em 1964), McLuhan diz que as tecnologias, que seriam consideradas extensões do homem, são qualquer artefato produzido pelo mesmo. Nascemos apenas com nossos sentidos, no entanto, vamos construindo e incorporando, ao longo da vida, ferramentas que os aperfeiçoam – as chamadas “extensões". Para o autor, uma extensão ocorre quando um indivíduo faz, ou utiliza, algo de maneira que amplie o alcance do corpo e da mente humana de uma nova forma.
Na obra, o estudioso buscou distinguir as mídias de acordo com o grau de participação que exigem das pessoas que as consomem, classificando-as como "hot and cool" (gírias provenientes do jazz). Segundo ele, existem diversos tipos de mídia que coexistem e interagem entre si. Os meios quentes são aqueles que não exigem grande grau de participação da audiência para compreensão da mensagem. Estes prolongam um único sentido e possuem alta definição. Já os meios frios requerem grande participação para a construção de sentido, prolongam mais de um sentido (audição e visão por exemplo) e possuem baixa definição. Logo, os meios frios envolvem vários sentidos simultaneamente e disponibilizam menos informações, exigindo a intervenção do espectador para interpretar e completar livremente os vazios deixados pelas mídias, ao passo que os meios quentes não fomentam a imaginação, pois já comunicam de forma explícita e intensa.
Nas palavras de McLuhan:
“Há um princípio básico pelo qual se pode distinguir um meio quente de um meio frio, como o rádio, do telefone, ou o cinema, da televisão. Um meio quente é aquele que prolonga um único de nossos sentidos e em alta definição, enquanto um meio frio prolonga em baixa definição.”
São exemplos de meios quentes a fotografia, o rádio, o cinema, o livro, o papel e a escrita alfabética.
Já um meio frio é aquele que se prolonga em baixa definição, oferecendo uma quantidade menor de dados; uma menor saturação. Assim sendo, exige maior ação participativa da audiência para preencher e completar a informação com aquilo que ela imagina e compreende de um todo. Justamente por não estar totalmente completo, um meio frio permite maior participação do que um meio quente.
O telefone, a televisão e as caricaturas ou desenhos, a fala e meios pesados e maciços usados para a escrita como a pedra são exemplos de meios frios.
As sociedades também podem ser categorizadas como quentes e frias. As sociedades em desenvolvimento seriam as sociedades frias e as sociedades desenvolvidas as sociedades quentes. Com a influência dos meios quentes e frios, podem-se programar culturas inteiras na direção de que seu clima emocional se mantenha estável e equilibrado.
Estudos dos Meios
Até a metade do século 20, muitos teóricos da comunicação se preocupavam com a fórmula emissor-mensagem-receptor e os efeitos provocados por esta combinação, não dando a importância devida ao meio, que ainda era tratado somente como canal de comunicação, com funções específicas e pouca influência sobre as informações transmitidas. Mas essa percepção seria ultrapassada.
Em Toronto, no Canadá, Harold Innis e Marshall McLuhan percebiam os meios não apenas como estruturas técnicas de transmissão de mensagens, mas como influenciadores diretos, sendo responsáveis pela produção, controle e disseminação da informação.
Se pensar, por exemplo, na Revolução Escrita, percebe-se que o meio de comunicação altera também a sociedade como um todo, sendo impossível esse ser observado apenas de maneira funcional. A cultura e a mente humana mudam de acordo com o meio vigente.
E quando se fala de uma mudança da mente humana, se fala nos sentidos de uma forma geral, que podem ser aguçados e potencializados. Quanto mais o homem exige informações, mais o meio exige do homem fisicamente. É por essa conexão que os meios se transformam na extensão do próprio corpo humano.
Conclusão
As contribuições de Harold Innis e Marshall McLuhan trouxeram uma compreensão inovadora sobre os meios de comunicação. Eles deslocaram o foco da mensagem para o meio, revelando como as tecnologias moldam a história, os sentidos humanos e a cultura. A distinção entre meios quentes e meios frios, bem como a teoria espaço/tempo, oferece ferramentas valiosas para entender a evolução da comunicação e suas implicações sociais.